
Miscelânea de sulistas
Curitiba não é terra só de imigrantes europeus; muitos catarinenses adotaram a cidade como lar desde a década de 1950
Adoaldo trabalha em seu atelier no bairro do Pilarzinho (foto)
Ceramista já executou dezenas de painéis de artistas plásticos como Poty Lazarotto e Juarez Machado (foto)
Não existe um levantamento oficial que aponte a população de catarinenses e riograndenses que moram em Curitiba. Sabe-se que são milhares. E que residem aqui mais catarinenses do que gaúchos. Boa parte deles se concentram na região do Sul da cidade. Vale frisar, que estas informações são frutos da observação e também da especulação. Mas é bem verdade, que não é difÃcil tropeçar com um representante dos estados vizinhos do Sul em uma esquina de Curitiba.
O ceramista, vitralista e mosaicista Adoaldo Lenzi ficou famoso por executar trabalhos de Poty Lazarotto, Juarez Machado entre outros artistas. Descendente de italianos, nasceu em Jaraguá do Sul, em Santa Catarina, e veio com a famÃlia para Curitiba ou ''Serra Alta'', quando tinha apenas 12 anos. Aqui já moravam outros sete irmãos, no bairro do Pilarzinho, onde se instalou com os pais. ''A nossa casa ficava à Rua Dom Alberto Gonçalves. Das oito residências que tinham lá, quatro eram de famÃlias catarinenses'', lembra Adoaldo, 62 anos, que concluiu o ensino médio no Colégio Estadual do Paraná.
Logo Adoaldo conseguiu emprego com o ceramista gaúcho João Genehr, com quem aprendeu um pouco do que sabe. ''Ele foi meu mestre, meu maior entusiasta. Sabia valorizar o trabalho de cada um. Aprendi observando o que ele fazia, mas sou também autodidata'', conta ele, dizendo que foi, em 1965, para o Rio de Janeiro, onde chegou a fazer arte dramática. ''Mas não me adaptei à rotina do Rio, muito barulho nunca fez minha cabeça e resolvi voltar a Curitiba e a trabalhar com Genehr. Em 1970, abri meu próprio atelier com o apoio dele'', acrescenta Adoaldo Lenzi, cuja história será em breve contada num livro.
''Curitiba já tinha enraizado dentro de mim. Sou muito provinciano, assim como a cidade. Nunca senti nenhum tipo de rejeição aqui. Até me chamavam de barriga verde, mas eu não ligava'', explica ele, contando que de catarinense ou de descendência italiana guarda o gosto pela culinária e de ter a casa cheia de amigos e parentes. ''Sou mais curitibano do que catarinense. Sempre fui muito respeitado na cidade, onde já completei mais 40 anos de carreira. Aqui realizei tudo o que sonhei e até aquilo que não sonhei. Tem um amigo que diz que sou um catarina que deu certo'', acredita Lenzi.
Assim como Adoaldo, nos anos 1950 e 1960, migraram para Curitiba muitos jovens catarinenses em busca de qualificação nas universidades, já que naquele estado ainda não havia muitas opções de cursos superior. Depois de formados, alguns catarinas iniciaram uma carreira brilhante na cidade e ganharam fama fora daqui: o cineasta Sylvio Back, o artista plástico Juarez Machado e o escritor e professor da Universidade Federal do Paraná Cristovão Tezza são alguns deles.
''Nasci em Lages (SC) e minha mãe resolver vir para cá com os quatro filhos em 1961, depois que meu pai faleceu. Eu tinha oito anos. Nunca mais saÃmos daqui'', resgata Tezza, acrescentando que não tem parentes em Lages. ''Estudei no Grupo Escolar Tiradentes, depois fiz o 5º ano no Zacarias, porque levei pau no exame de admissão do Colégio Estadual. Depois passei lá, onde estudei os quatro anos do ginásio e os três do cientÃfico'', detalha o escritor, dizendo que sua relação com a terra natal se fez, mais tarde, por outras vias; foi professor da Universidade Federal de Santa Catarina nos anos de 1986 e 1987.
União - A enfermeira Karolinne Lobato, de 28 anos, e o médico anestesista Rafael Lobato, de 31 anos, moram em Curitiba, desde março de 2006, com a filha, Joana, de três anos. Ela é natural de Florianópolis (SC) e ele é de Porto Alegre (RS). ''A gente morava em Criciúma (SC) quando o Rafael recebeu a proposta de emprego para trabalhar aqui. Não pensamos duas vezes. Foi uma boa decisão. Não pensamos em voltar para Floripa, nem para Porto Alegre'', disse Karolinne, que pretende abrir uma clÃnica de estética na cidade.
A enfermeira diz que amizades com conterrâneos, em Curitiba, se resume ao pai da amiguinha de escola da filha, que é catarinense de Concórdia. ''A gente se adaptou bem, mas o primeiro ano foi estranho. Sinto falta apenas do lazer com o qual estava acostumada em Floripa, que é a praia. Mas Curitiba compensa com os parques, cultura e variedade gastronômica. Eu e minha filha temos o hábito de comer peixe e frutos do mar. Pelo menos, uma vez por semana, preparo em casa, tudo fresquinho'', confessa ela, dizendo que os hábitos gauchescos que o marido preserva são comer muita carne, tomar chimarrão e a fissura pelo surf.
Também tem catarinenses no Poder
Há catarinenses também na Câmara dos Vereadores de Curitiba. Dos 38 parlamentares, cinco nasceram no estado vizinho: Jorge Bernardi (PDT), Nely Almeida (PSDB), Dona Lourdes (PSDB), Celso Torquato (PSDB) e Jairo Marcelino (PDT). Este último vereador, inclusive, nasceu no municÃpio de Curitibanos, no Norte de Santa Catarina. Tanta coincidência por pouco não o fez um curitibano de nascença, Jairo Marcelino, de 64 anos, é curitibanense.
''Meu pai veio para cá para trabalhar e a famÃlia veio junto. Eu tinha dez anos. Terminei o ginásio aqui e depois fui trabalhar como cobrador e motorista de ônibus. Fui lançado como candidato dos motoristas, em 1982'', conta Jairo Marcelino, informando que, em 2002, uma pesquisa apontava que 5% da população curitibana era de catarinenses. ''Me sinto um curitibano. Esta é uma cidade acolhedora e tenho um grande apego a minha comunidade, que é da região Norte da cidade e que me apóia. Não sei se algum catarinense votou em mim'', disse ele, informando que havia aqui, há de dez anos, uma associação de catarinenses.
A vereadora Nely Almeida (PSDB), de 72 anos, natural de Florianópolis, também veio para Curitiba ainda na infância. ''Meu pai veio para acompanhar a minha irmã mais velha, que Ãa estudar Medicina. Lá em Florianópolis não tinha o curso, apenas o de Farmácia'', lembra ela, que nunca perdeu o sotaque de ''manezinha da ilha''. ''Falo um pouco como portuguesa, as palavras saem chiadas, rapidinho mesmo. Falo numa velocidade galopante. Na hora do discurso é uma gozação, os eleitores riem porque não entendem muita coisa que falo'', assume Nely, dizendo que também não tem contato com eleitores ''catarinas''.
''Cheguei aqui, em 1952, com a minha famÃlia, a cidade tinha 250 mil habitantes. Meu pai via Curitiba como uma cidade progressista e queria nos dar boa edução e oportunidades'', recorda o vereador Celso Torquato, de 61 anos sendo 54 deles vividos em Curitiba. O parlamentar é natural de Rio do Sul, e se estabeleceu no bairro do Portão, depois de morar na Vila Fanny e no Alto da XV. ''Eu e meus irmãos trabalhamos no comércio. Lembro que nas lojas de confecções, como Casa Edite e Casa Globo, 70% a 80% dos funcionários eram catarinenses'', resgata ele, que ingressou no primeiro mandato em 1992.
O vereador Jorge Bernardi (PDT), 51 anos, natural de Herval d'Oeste, veio para Curitiba, em 1975, onde cursou Jornalismo e Direito e morou com uns primos no bairro do Cajuru. Em 1982, iniciou seu primeiro mandato na Câmara. Ele lembra que um livro sobre os catarinas no Paraná, escrito pelo jornalista Dante Medonça, foi lançado em 1989, época que foi realizado um recadastramento e levantado o número de 200 mil eleitores catarinenses em Curitiba.
''Amo essa cidade. Meus filhos nasceram aqui. Curitiba me deu oportunidade para estudar, exercer minha profissão. Se passo três dias fora, já sinto saudade'', diz o verador. ''Na época de estudante, éramos mais bairristas, existia a Associação de Estudantes de Santa Catarina e até uma boate onde nos encontrávamos. Agora, estamos mais enraizados, há um identificação grande com Curitiba'', pontua ele, revelando que pensa em voltar a morar no estado de origem depois que se aposentar, numa casinha na praia em Florianópolis.
Flora Guedes - Folha Curitiba