Memórias do tempo de escola

Jornal/ Mídia:
Folha de Londrina
Data:
05/10/2007

Colégio Estadual do Paraná relaciona dezenas de ex-alunos que se destacaram em suas futuras profissões e se tornaram personalidades

O Colégio Estadual do Paraná é mais antigo, oficialmente, do que o próprio Estado. A província de São Paulo criou, por lei, em 1846, o Liceu de Coritiba, instalada numa casa alugada no Largo da Matriz, hoje, a Praça Tiradentes. No início, lá só era ensinado Gramática Latina e Língua Francesa e era previsto em dispositivo o uso moderado da palmatória. Quase 30 anos após sua criação, passou a ser chamado de Instituto Paranaense e, no ano de 1880, recebeu uma ilustre visita da corte brasileira, o imperador Dom Pedro II.

Após a Reforma do Ensino, em 1982, foi rebatizado de Gymnásio Paranaense e só em 1943, o próprio presidente da República, Getúlio Vargas, muda o nome do estabelecimento de ensino para Colégio Estadual do Paraná, confirmado pelo interventor federal do Estado, Manoel Ribas. Em 1950 foi inaugurada a atual sede da escola. Tantos anos de história, sempre como referência de instituição de ensino, o Estadual acumula a educação de milhares de alunos. Destes, uma ''listagem comprida'' trilhou carreiras brilhantes, ganhou reconhecimento e fama. E guarda na memória boas histórias para contar.

O químico e botânico Gert Hatschbach, de 84 anos, fundador do Museu Botânico Municipal de Curitiba, estudou na instituição, na década de 1940, quando ainda era o Gymnásio Paranaense e foi aluno do mestre Guido Viaro ''Ele foi nosso professor de desenho, só que eu e outro colega, o Rudolph Lange, não gostávamos da aula porque não tínhamos habilidade mesmo. Uma vez, ele ficou muito brabo conosco porque levamos insetos para a sala e não prestávamos atenção na aula. Ele pegou a caixinha com os insetos e disse que ia jogar pela janela. Foi um rebuliço, mas no final, ele não jogou'', recorda Hatschbach.

Na mesma década, também estudou lá o empreteiro Cecílio do Rego Almeida, de 77 anos. ''Fiz uma espécie de vestibular para entrar no Gymnásio, estudei com a Dona Carola, que tinha um cursinho preparatório. Lembro do professor Ribeiro, ensinava Latim e era um gênio. Outros docentes fantásticos foram Homero Barros e Ulisses de Melo e Silva'', resgata. ''Valorizava o ensino porque era pobre e estudei sempre de graça. Depois que entrei no Gymnásio, passei num concurso federal de telégrafos, aos 15 anos, em primeiro lugar. Alcancei o posto de telegrafista e fui remunerado com um salário de chefe de família.''

O vice-governador do Paraná, Orlando Pessuti, de 54 anos, saiu de Jardim Alegre, com exatos 17 anos e 11 meses para participar da seleção para o Estadual. ''Eu pretendia fazer vestibular de Medicina Veterinária e não existia o científico na minha cidade. Entrei em 1971. Foi uma fase especial da minha vida, sempre estive envolvido com o Grêmio Estudantil e fui representante de turma. Tínhamos bons laboratórios e podíamos usufruir da piscina e de um campo de futebol'', conta ele, dizendo lembrar de uma travessura da mocidade.

''Estudava numa sala do terceiro andar e da nossa janela a turma despejava água na cabeça de quem transitava no pátio. Era só uma brincadeira para refrescar a cabeça das pessoas. Num belo dia, quando fomos buscar água no banheiro, encontramos o diretor do turno da noite, o Rudolph Lange, nos esperando na sala'', lembra. ''Ele nos disse que sabia que éramos bons de pontaria e estava curioso para saber onde pegávamos água. Nos suspendeu por uma semana. Ele era um diretor enérgico e disciplinador''.

O ator Ary Fontoura, de 74 anos, foi um dos primeiros alunos do Estadual na atual sede, onde ingressou, em 1950, para estudar o curso clássico. ''Na época tinha um diretor muito rigoroso, o Robine, ex-seminarista que aplicava no colégio regras absurdas e aquilo nos revoltava. Imagine que ele não permitia peças de teatro mistas, com meninos e meninas, nem permitia que os meninos fizessem o papel das moças. Era um negócio sério conseguir peças nesse perfil'', lembra o ator curitibano.

''Fomos salvos pelo próprio filho dele, que também era professor do colégio e tinha um espírito mais rebelde. Apesar disso, éramos bem amparados pelo ensino público, tínhamos a liberdade de discordar. Batíamos de frente mesmo, a gente meteu o pau no diretor. Produzimos um jornal para criticar e reinvidicar tudo que queríamos. Quando fizemos o primeiro teatro com elenco misto, demos viva'', lembra ele, citando nome de colegas como René Dotti e Dino Almeida. Entre os professores, Fontoura guarda Norberto Texeira e o britânico William Butler, este último era bem-humorado e dono de ''didática extraordinária''.

O arquiteto e ex-governador Jaime Lerner, de 69 anos, lembra que assistiu à inauguração do Teatro do Estadual. ''Na nova sede, lembro que as turmas eram mistas, mas no recreio separavam meninos e meninas. As olimpíadas estudantis eram um acontecimento na cidade, o colégio investia muito no Esporte. Pertenço a uma geração que teve a felicidade de ter uma educação de qualidade, principalmente de línguas como inglês, francês e espanhol'', defende. ''O Estadual não era sectário, mas nos proporcionava o próprio perfil da sociedade porque os alunos tinham realidades e rendas diferentes'', elogia Lerner.

SAIBA MAIS

Ex-alunos do Colégio Estadual do Paraná que se tornaram personalidades:

- Advogados, juristas, desembargadores e procuradores: Samuel Guimarães de Castro, Adolfo Kriger Pereira, Rafael Iatauro, Silvio Albuquerque Maranhão, Hélio Narezi, Ronald Acioly, Renê Dotti

- Arquiteto: Rubens Meister, Abraão Assad

- Astrônomo: César Lates
- Atletas: Armando Chiamulera (salto com vara - campeão brasileiro 1972/1974, 1975), Celso Wolf (natação - campeão brasileiro 1972), Maurício Requião (lançamento de martelo - campeão brasileiro 1974/ campeão Troféu Brasil 1975), Themis Zambriski (atletismo), Herson Capri (natação - campeão brasileiro 1968)

- Atores: Herson Capri, Ary Fontoura, Odelair Rodrigues, Reneé de Virmond, Fátima Freire, Denise Stoklos, Marjorie Estiano, Ranieri Gonzalez, Leonardo Miggiorin, Luís Mello, professora Ema Riva Correia

- Botânico: Gert Hatsschbach

- Educação: Emiliano Perneta, generoso Marques, Guido Viaro, Victor Ferreira do Amaral, Nilo Brandão, Lysimaco Ferreira da Costa, Benedito Nicolau dos Santos, Bento Mossurunga, Homero Batista Barros, Jeronymo Mazarotto, Euro Brandão, Riad Salamuni

- Empresários: Cecílio do Rêgo Almeida, José Carlos Gomes de Carvalho, Miguel Krieger

- Escritores e Historiadores: Dalton Trevisan, Paulo Leminski, Metry Bacila, Cecília Westfalen, Leopoldo Cherner, Crsitovão Tezza, general Luiz Carlos Pereira Tourinho

- General do Exército Brasileiro: Jaime José Jurasczek

- Governadores: Emílio Gomes, José Richa, Jaime Lerner, Jaime Canet, Ney Braga, Roberto Requião

- Jornalistas: Roberto Barroso, Francisco Cunha Pereira, Marcos Batista, Dino Almeida, Luiz Geraldo Mazza

- Médicos: Marluz Lenz César, Murilo Meneses, Lauro Grein Filho, Mousés Parcionik, David Carneiro

- Pintores, artistas plásticos e músicos: Osório Brezezinski, Sanchotene, Jarbas Schunemann, Rubens Smanhotto, Carlos Eduardo Zimmermann, Pedro Macedo, Alceo Bocchino, Arrigo Barnabé, Rones Dunke, Ricardo Kock, Ema Kock, Poty Lazarotto, Mohamed Al Assal, Adoaldo Lenzi

- Políticos, diplomatas e prefeitos: Afonso Camargo Neto, Adhail Sprengel Passos, Orlando Pessuti, Ricardo Gomyde, Olivir Gabardo, Ivo Arzua, Orlando Soares Carbonar, Omar Sabag, Elias Abraão, Maurício Requião

- Presidente da República: Jânio Quadros

Fonte: Site do CEP e outros

Flora Guedes
Equipe da Folha